Nos últimos anos, uma das maiores mudanças que observei no mercado não foi na forma como as empresas medem carbono, mas como utilizam essas informações para tomar decisões. A agenda climática corporativa amadureceu. Se antes a prioridade era responder “quanto emitimos?”, hoje as perguntas mais relevantes são outras: quais emissões devemos priorizar primeiro? Onde estão as maiores oportunidades de redução? Como priorizar investimentos? Como engajar a cadeia de valor?
É nesse momento que os dados deixam de ser apenas indicadores de desempenho e passam a ser instrumentos de gestão.
Em um ambiente de crescente pressão regulatória, maior atenção de investidores e metas climáticas cada vez mais ambiciosas, a qualidade dos dados passou a ser um diferencial estratégico. Mais do que reportar números, as organizações precisam compreender o que eles revelam sobre seus riscos, oportunidades e prioridades de atuação.
Esse movimento já aparece na forma como as empresas estruturam seus compromissos climáticos. Dados da Carbon Disclosure Project (CDP), divulgados no relatório Planos de Transição Climática 2025, mostram que 32% das organizações que reportam à entidade já possuem um plano de transição climática, percentual 8% superior ao registrado em 2023. O dado sinaliza uma mudança relevante: a agenda climática deixa de ocupar um espaço restrito aos relatórios de sustentabilidade e passa a influenciar decisões de negócio.
Nesse contexto, o inventário de emissões de GEE ganha relevância como ferramenta de gestão. Ao identificar e quantificar as diferentes fontes de gases de efeito estufa, ele fornece uma visão mais clara sobre onde estão concentrados os impactos, como eles evoluem ao longo do tempo e quais fatores exigem maior atenção. Mas, o verdadeiro valor desse exercício não está apenas na mensuração. Está na capacidade de transformar informação em direcionamento estratégico.
Uma análise consistente exige compreender que nem todas as emissões possuem a mesma natureza ou o mesmo grau de controle pela empresa. O Escopo 1 contempla as emissões diretas geradas pelas operações, como aquelas associadas ao consumo de combustíveis e às emissões fugitivas. O Escopo 2 reúne as emissões indiretas relacionadas à energia elétrica adquirida. Já o Escopo 3 amplia a análise para a cadeia de valor e inclui impactos associados a fornecedores, serviços contratados, transporte, resíduos e outras atividades que ocorrem fora dos limites operacionais da organização.
Essa diferenciação é fundamental porque cada escopo de emissões demanda estratégias próprias de gestão. Parte das reduções depende de decisões operacionais diretas. Outra parcela exige engajamento de fornecedores, parceiros e diferentes agentes da cadeia produtiva.
Por isso, olhar apenas para o volume total emitido oferece uma visão limitada. Os resultados precisam ser analisados à luz do contexto operacional, das medidas implementadas e das características específicas de cada período. Entender o que impulsiona uma redução é tão importante quanto quantificar essa redução.
Na Elera Renováveis, concluímos recentemente o Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa referente às operações de 2025, que segue as diretrizes do Programa Brasileiro GHG Protocol e passa por verificação independente, reforçando a confiabilidade das informações. Os resultados da nossa gestão climática refletiram uma combinação de eficiência operacional, gestão estratégica de energia e evolução do portfólio de ativos.
Em relação a 2024, registramos uma redução de 3% nas emissões de Escopo 1 associadas à combustão móvel, impulsionada principalmente pela diminuição do consumo de diesel nas operações do Chile e pela priorização do etanol nas frotas operacionais do Brasil.
Também reduzimos em 9% as emissões provenientes da combustão estacionária, em razão da menor utilização de geradores a diesel. No Escopo 2, alcançamos uma redução de 52% das emissões, resultado de iniciativas de eficiência energética, como o uso racional de iluminação e climatização em unidades administrativas e escritórios. Além disso, aposentamos I-RECs equivalentes a 100% da energia adquirida da rede, o que permitiu zerar as emissões na abordagem baseada na escolha de compra de energia.
Ainda observamos reduções em categorias do Escopo 3, como resíduos gerados nas operações e viagens a negócios, além dos efeitos positivos da ausência de obras de construção e do desinvestimento de ativos sobre emissões relacionadas à supressão de vegetação nativa, bens de capital e bens e serviços adquiridos. Apesar dos avanços, registramos aumento nas emissões fugitivas devido a vazamentos de SF₆ em equipamentos elétricos.
O inventário permite identificar as fontes mais relevantes de emissão, acompanhar tendências e definir prioridades para os próximos ciclos de gestão. Para que esse diagnóstico seja efetivo, qualidade, rastreabilidade e transparência dos dados são fundamentais.
Essa capacidade analítica é particularmente importante quando observamos as emissões da cadeia de valor. Em muitos setores, a maior parcela da pegada de carbono está associada a atividades que não ocorrem diretamente sob controle da empresa. Nesses casos, o dado deixa de ser apenas um indicador de desempenho e passa a ser um instrumento de engajamento, capaz de orientar estratégias junto a fornecedores, prestadores de serviços e demais parceiros.
Transformar dados em decisões significa reconhecer que cada tonelada de carbono reportada carrega uma oportunidade de gestão. Significa direcionar investimentos de forma mais eficiente, fortalecer a resiliência dos negócios diante da transição para uma economia de baixo carbono e construir vantagens competitivas em um ambiente cada vez mais exigente.
Medir continua sendo fundamental. Mas, em um cenário onde informações climáticas se tornam cada vez mais acessíveis, a diferença estará na capacidade de interpretá-las, conectá-las à estratégia do negócio e transformá-las em ação.
Tatiana Ricota, diretora de Sustentabilidade da Elera Renováveis.
Confira a notícia completa: https://esginside.com.br/2026/10/02/o-desafio-de-transformar-dados-sobre-emissoes-de-carbono-em-decisoes/